Projeto Budo
Associação Projeto Budô de Artes Marciais
Rua Luis Martins, 127 – Lapa – São Paulo – SP
Horários:
Terças e Quintas – 19h00 às 21h00
Sábados – 10h30 às 12h30
Prof. Vinicius Jerschow
Judo vs Jiu-Jitsu – Por Leonardo Lopes
Saiu uma matéria na revista Tatame de Novembro/2010 (edição 177). Caso você tenha um amigo ou conhecido praticante de Ju-Jitsu ou Judo, passe adiante se achar interessante.
Em resumo, a matéria explica que o Ju-Jitsu brasileiro é na verdade a primeira versão do judo (que era chamado de Kano Ju-Jitsu), só que por dificuldades de comunicação naquela época, a notificação de atualização para a segunda versão do Kano Ju-Jitsu (passando a ser chamado oficialmente de judô à partir de 1925) chegou com bastante atraso ao Brasil (imagina alguém do Japão se corresponder com alguém em Belém-PA no ano de 1925, cidade onde o professor Mitsuyo Maeda, conhecido como Conde Koma lecionava o então Kano Ju-Jitsu, e que desde 1906 estava sem contato algum com o Kodokan). Quando isto finalmente aconteceu, as famílias Gracie e Fadda (que são as duas escolas de ju-jitsu brasileiro, a primeira, aluna direta do professor Maeda e a segunda de um aluno brasileiro do mesmo, chamado Luíz França) não adotaram o novo método, continuando com o antigo, mudando os nomes das técnicas em japonês para português e realizando (ainda nos dias de hoje) lutas de Vale-Tudo (modalidade esta que ficou proibida para judocas desde aquela época até hoje), entre outras adaptações.Esta não-adesão ao novo estilo (judô) foi positiva, pois manteve viva várias técnicas deixadas de lado pela grande maioria dos judocas. Nesta edição da revista, existe um artigo retirado de um livro escrito pelo próprio Maeda, onde o mesmo esclarece que o Ju-Jitsu ensinado por ele e o Judo são a mesma arte (página 61).
Resumindo:
· JU – JITSU = Arte Suave (a grafia ocidental “Jiu” é incorreta pois foi “abrasileirada”. Pode conferir com qualquer pessoa que fale / escreva japonês). Ocorre que na época existiam vários estilos (ou “ryus”, como chamados em japonês) de Ju-jitsu (assim como ocorre com o kung-fu até hoje por exemplo), e o Dr. Jigoro Kano conseguiu “fundir” a maioria dos estilos da época (em acordo fechado com os mestres de cada estilo) em um único método, então chamado Kano Ju-Jitsu (sistema Kano de Ju-Jitsu), ocorrendo então a fundação do instuto Kododan. Este novo sistema (Kano Ju-jitsu) foi posteriormente atualizado (conforme acima mencionado) e teve seu nome modificado para Judo. O instituto Kodokan existe até os dias de hoje, e tem sua sede em Tokyo-Japão e ainda determina as regras mundiais de conduta no judo. O praticante de Ju-jitsu é chamado de Jujitsuka.
· JU – DO = Caminho Suave. Vide comentários acima. O praticante de Judô é chamado de judoca (ou judoka).
Para quem não conhece a família Fadda do Ju-Jitsu, aqui vai uma prévia:
Oswaldo Baptista Fadda (Rio de Janeiro, 15 de janeiro de 1921 – Rio de Janeiro, 1 de abril de 2005. Foi um Grande Mestre de Ju-Jitsu, chegando ao 9º grau (faixa vermelha).
O professor Oswaldo Baptista Fadda nasceu, viveu e morreu em Bento Ribeiro. Homem humilde, conhecedor profundo do Ju jitsu e o pioneiro a levar a “arte suave” para o subúrbio carioca. Aos 17 anos, quando era fuzileiro naval da Marinha do Brasil, Oswaldo Fadda começou a treinar ju jitsu e foi o melhor pupilo do Professor Luiz França, que fez parte do pequeno grupo de alunos do Conde Koma, introdutor do ju jitsu no Brasil, em 1917, na cidade de Belém, no estado do Pará. No subúrbio em que sempre viveu, com profundo idealismo, divulgou, extraordinariamente, esta modalidade esportiva. Demonstrava, com seus alunos, as técnicas do ju jitsu nas favelas, praças públicas, praias, morros, circos, pátios de igrejas e clubes, visando a ampla expansão de sua prática possível a todos.
Outra importante atividade, da qual o Mestre Fadda foi pioneiro, era a recuperação, através do ju jitsu, de pessoas com anomalias físicas e até mentais, principalmente vítimas de paralisia infantil. Bom, com tantos trabalhos voluntários e tendo como público uma comunidade carente, não lhe restava muito capital para investir em publicidade. O máximo que ele conseguia para poder divulgar sua academia era um pequeno espaço na página de óbitos. Então a solução encontrada pelo Mestre para chamar a atenção da mídia foi a de desafiar a poderosa família dos Gracie.
Em 1954, o Mestre Fadda foi aos jornais O Globo e o Diário da Noite e declarou:
“Desejamos enfrentar os Gracie, respeitamo-los como incomparáveis adversários, porém não os tememos. Disponho de cerca de vinte alunos para os encontros”.
Atendendo as expectativas, Hélio Gracie aceitou o desafio, dizendo-se impressionado pelo cavalheirismo do desafiante e garantiu que as lutas iriam ocorrer na própria sede da academia Gracie, no centro da cidade do Rio de Janeiro. As lutas ocorreram no segundo semestre do mesmo ano, mas dessa vez os fatos foram de encontro às expectativas: a academia Fadda superou a academia dos Gracie, surpreendendo a comunidade do ju jitsu. Destaque para a finalização emplacada por José Guimarães, que deixou desacordado Leônidas, então lutador da Gracie. Ao término do desafio, a Academia Fadda ganhou expressão e notoriedade.
“ACABAMOS COM O TABÚ DOS GRACIE” disse Fadda, na época à Revista do Esporte.
Helio, impressionado com a técnica dos lutadores suburbanos, declarou que o Ju-jitsu não era exclusividade de uma família.
Fadda foi aluno de Luiz França, um dos discípulos do célebre Conde Koma, que também treinou, dentre outros, os Grandes Mestres Hélio Gracie e Carlos Gracie, maiores difusores do Ju-Jitsu no Brasil.
Em 1942 Fadda recebeu a faixa preta e começou a ensinar Ju-Jitsu, no subúrbio deBento Ribeiro, na cidade do Rio de Janeiro. Em 27 de janeiro de 1950, nesse mesmo subúrbio, Fadda fundou sua própria academia.
No ano de 1954, Fadda vai até a Academia Gracie, acompanhando de vários de seus alunos, para uma série de combates com o famoso clã do Ju-Jitsu. Dentre os combates, houve uma memorável luta entre Hélio Gracie e Oswaldo Fadda, tendo sido a primeira vez que um desafiante derrotou um dos irmãos Gracie.
É preciso existir um FADDA, para mostrar que o Ju-Jitsu não é privilégio dos Gracie.
— Hélio Gracie, na Revista dos Esportes, publicada no Rio de Janeiro em 1954
Um dos grandes seguidores do mestre Fadda é o mestre Deoclecio Paulo, o saudoso mestre DEO, que foi recentemente graduado ao ultimo nível atingível aos mortais, a faixa Vermelha 9º grau.
O Início
O Grande Mestre Oswaldo Baptista Fadda nasceu no Rio de Janeiro no bairro de Bento Ribeiro e praticamente respirou ju-jitsu. Era muito conhecido também por ser um homem de família bem humilde e de um conhecimento imenso da arte do ju jitsu. Fez muitas amizades quando vivo e sendo o primeiro a iniciar suas aulas no bairro ganhou o título de pioneiro da arte no Rio e adjacências do subúrbio da Zona Oeste.
Iniciou sua jornada no ano de 1937. Somente com 17 anos de idade o nosso Fadda colocaria pela primeira vez um kimono. Como todos sabem Fadda foi aluno de Luiz França, que por sua vez foi um dos discípulos do pioneiro do ju-jitsu no Brasil, o “Conde Koma”. Depois de um ano, Luiz França já dizia que Fadda seria um aluno de grande promessa na arte do ju-jitsu no Brasil. Como poderia França estar tão certo disso? O que vemos hoje na história é a confirmação de França.
Fadda fazia várias demonstrações com seus alunos, não escolhia lugares e aonde pudesse colocar seus tatames ele estaría lá, e até muitas vezes mesmo sem tatames, no próprio chão duro de cimento ou barro.
Ajudando deficientes físicos (para quem não sabe), Fadda era envolvido em uma grande e importante atividade, que era a recuperação, através dos ensinamentos do ju-jitsu, de pessoas com problemas físicos e mentais. Naquela época ainda não tínhamos um controle da paralisia infantil e Fadda tinha vários alunos com essa doença participando de suas aulas como forma de melhorar a coordenação motora dos mesmos.
Em 1942 Luiz França resolve promover Fadda ao título de professor faixa-preta. França agora bem orgulhoso de seu aluno que seria um exemplo para muitos. Aguns anos depois Fadda teria fundado seu primeiro quartel general na cidade do Rio por volta de 1950.
Fadda derrota Hélio Gracie
Um combate não tão famoso hoje em dia, mas no ano de 1954, O Grande Mestre Fadda lutaria com um dos seus maiores concorrentes e amigo também. Com a presença de vários de seus alunos, Fadda derrotaria um Gracie…
Dentre muitos faixas-pretas que formou, ainda hoje encontra-se na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Wilson Pereira Mattos, mais conhecido como Mestre Wilson ou Shiran que hoje é detentor da faixa vermelha nono grau, o nível mais alto que se pode atingir hoje no ju-jitsu. Mestre Wilson possui representações em muitos lugares do Brasil e no mundo, tais como: Japão, Estados Unidos, Portugal e Austrália
Para quem não conhece, segue um resumo da vida do professor Maeda (conhecido como Conde Koma):
Conde Koma – Mitsuyo Maeda
Aproximadamente entre 1912 e 1922, veio do Japão o professor Mitsuyo Maeda, conhecido como Conde Koma, que viajou o mundo todo dando demonstrações de Judô para os ocidentais. Quando chegou ao Brasil, deu várias exibições no Rio de Janeiro e em São Paulo, sem contudo despertar maior interesse no meio esportivo. Viajou para o norte do país e fixou residência no Pará, permanecendo como instrutor de Judô e Ju-Jitsu. Ensinou a luta a uma família brasileira que melhor adquiriu os seus conhecimentos, sendo seu melhor aluno, Carlos Gracie, o fundador de Gracie Ju-Jitsu, entre outros da mesma família que com o aprendizado divulgou muito o Ju-Jitsu para todo o país.
Mitsuyo Maeda nasceu em Aomori, situada ao norte da ilha Japonesa, em 1878. Quando tinha aproximadamente 18 anos ele se mudou para Tóquio onde começou a praticar judô. Seu registro de entrada no Kodokan data de 1897. Ele possuía um talento natural para o judô e rapidamente passava de uma graduação a outra e se estabeleceu como o jovem judoca mais promissor no Kodokan.
Entrevista com Floriano de Almeida
Primeiramente gostaríamos de agradecer ao professor Floriano pela paciência e oportunidade que nos foi concedida nesta entrevista.
Segue a entrevista. Apreciem sem moderação!
Equipe: Primeiramente gostaríamos de saber um pouco do seu perfil. Sua origem, conquistas, etc.
Floriano: Sou Floriano Paulo de Almeida Neto, meu primeiro professor foi Fuiyo Oide na Associação de Judô Lapa, há 42 anos, sou formado em Educação Física pela USP e especialista em treinamento esportivo. Fui várias vezes campeão Paulista e conquistei 7 títulos nacionais entre Junior, Estudantil (antigo JEB’s), Universitário, etc.
Medalha de prata no Mundial Universitário e bronze na Shorik Cup. Como técnico os títulos vem através de meus atletas, portanto, participei na conquista de medalhas em mundiais de juniores, seniores, olimpíadas, e outras em campeonatos continentais.
Trabalhei 13 anos no Projeto Futuro em São Paulo, além de clubes como Espéria, São Paulo Futebol Clube e atualmente no Minas Tênis Clube, onde conquistamos 2 títulos de Troféu Brasil e 1 título de Gran Prix nacional.
Equipe: Você foi técnico do projeto futuro correto? Fale um pouco sobre o projeto. Como era na época em que estava lá? O quanto contribuiu e ainda contribui para o judô nacional?
Floriano: O Projeto foi minha vida por 13 anos. Aprendi muito lá, foi uma universidade, com mestrado e doutorado, uma experiência realmente incrível e mágica. Eu trabalhava com pessoas especiais em busca de sonhos a se realizarem, mas eu olhava um pouco mais à frente e queria que fossem pessoas mais completas, portanto cobrava estudo, atitudes, caráter.
Posso afirmar que pela característica do projeto Futuro como começou que, o Judô de competição no Brasil pode se dividir entre antes e depois do PF, porque lá, conseguíamos manter os atletas na mão praticamente o dia todo e implantar um sistema de treinamento, com uma rotina diária de 2 sessões, onde tentei aplicar um pouco de ciência do esporte apoiando as questões técnicas. Depois disso, várias equipes começaram a reformular o método de trabalho, pois viam sair muitos campeões de lá.
Por alguns anos, a base da equipe Júnior brasileira era de lá, sempre tínhamos 5 ou 6 atletas na seleção de base. Até hoje tem atletas da seleção principal que foram do Projeto Futuro e outros que estão treinando lá, já estão ocupando as vagas de titular.
Equipe: Entendendo o judô como uma arte e como um esporte, existe diferença no conceito de ensino do judô se compararmos um judoca que treina, se forma e torna-se sensei como alguém que apenas compete judô?
Floriano: São coisas distintas, mas que por aqui ainda se misturam. O Judô é algo além da competição, é muito maior que competição. Competição é só uma das vertentes do judô.
Minha filosofia de trabalho é: através da competição, do treino para competição, trabalhar o ser humano que busca o resultado, para que ele perceba que o mais importante de tudo é o caminho que ele trilha para sua maior conquista. Através desse processo ele se torne uma pessoa melhor, não pelo resultado alcançado em si, mas sim por ter conseguido passar pelo processo todo, percorrer o caminho e ter sabido superar todas as dificuldades para atingir sua meta.
Creio que, se tiver formação acadêmica sempre vai sair na frente, se tiver sido competidor vai ter um pouco mais de vivência desse processo de superação que eu falei.
Tem pessoas que tem o dom de trabalhar com crianças, outras com adolescentes e outras ainda, com alto rendimento e todas essas pessoas serão importantes no processo de ensino/aprendizagem. Hoje acho cada vez mais difícil um atleta começar em uma academia e ir seguindo até uma medalha olímpica sem que haja outros profissionais dando suporte, interagindo, com esse atleta.
Equipe: Qual a idade ideal para início da prática? Há diferenças no caso da pergunta anterior?
Floriano: Depende de como será o início da prática. Hoje é comprovado o processo da motivação no processo ensino/aprendizagem, portanto as aulas não são mais apenas de fundamentos de Judô em si, há um método de ensino onde se utilizam processos pedagógicos multidisciplinares que fazem a criança se desenvolver de maneira mais ampla do ponto de vista corporal. O sensei de hoje tem que proporcionar à criança possibilidades de vivência motora.
Aí te respondo que a idade ideal para o início da prática está, hoje em dia, relacionada à capacidade do professor que está à frente do grupo de alunos, saber iniciar de forma correta para a faixa etária que tem na mão.
Equipe: Qual sua opinião sobre intercâmbio? Entre academias, estados, países.
Floriano: A troca de experiências e de conhecimentos só faz com as pessoas cresçam. Conhecer novas realidades e novas “verdades” é importantíssimo. Falo assim porque existem tantos “donos da verdade”, no meio do Judô, infelizmente.
Equipe: Você acha que o reconhecimento pelo que fez pelo judô veio rápido ou demorou?
Floriano: Na verdade, para ser sincero nunca pensava em reconhecimento pelo que eu fazia, eu estava tão envolvido com meus atletas que isso não me chamava a atenção. Reconhecimento não depende de nós, mas sim de quem nos reconhece ou não, o problema é deles.
Hoje sou reconhecido pelo que eu fiz, pelos resultados, mas sei que sou reconhecido pelos atletas com quem trabalhei por outros quesitos além dos resultados.
O Minas Tênis me convidou para trabalhar pelo trabalho que fazia com os garotos de 14, 15 anos, levando-os à seleção e pela postura desses atletas.
Equipe: Sabemos que você foi e ainda é técnico de grandes atletas. Para esses atletas existe treino específico? Qual seria a ‘receita’ ideal de treinamento para se tornar um campeão mundial em termos do compromisso do atleta e considerando o treino prático (lutas, entradas, musculação, uso de suplementos, alimentação, etc.) enfim, a rotina do atleta que tem como meta o título mundial/olímpico.
Floriano: Quem trabalha comigo sabe que não há treinos especiais para um ou outro. Há momentos especiais que cada um dos atletas vivem e portanto devem ser trabalhados diferente naquele momento específico. O segredo maior do meu trabalho é que eu valorizo estar todos os dias com meus atletas. É o que eu chamo de olho no olho, eu sei exatamente o que está acontecendo com eles, dentro e fora do tatami. (nem tudo, é claro! Rsrsrsrsrs)
Um campeão mundial se forma no dia a dia dele, nas 10.000 horas necessárias, segundo a neurociência, para se considerar “expertise”. Digo isso porque são tantos detalhes que te afirmo não haver receita, pois para cada medalha conquistada tem uma história por trás.
Agora te afirmo que: Determinação, compromisso e não desistir nunca são alguns dos quesitos importantes para a conquista de uma meta ou uma medalha.
Equipe: A nova regra do judô proíbe ataque as pernas do adversário salvo quando sequência, contra-golpe ou pegada cruzada. O que você acha disso? Acha que a regra foi radical?
Floriano: Na verdade tenta-se resgatar o judô mais verdadeiro, mais puro. O Judô pagou o preço de se globalizar, chegar dentro da vida de russos, brasileiros, coreanos, americanos, iranianos, etc. Portanto era natural que nesse processo sofresse influências técnicas.
Eu sempre trabalhei dentro do conceito do Judô mais puro, mais próximo da raiz dele lá no Japão. As técnicas de agarres de pernas tinham seu espaço nas competições sim, na minha opinião. Mas o que eu vejo é que os atletas perderam a essência das outras técnicas do judô, já não queriam mais aprender os fundamentos da nossa modalidade, queriam pular etapas e partir só para o agarre.
Agora, tenho que jogar a responsabilidade disso para os professores também, pois se acomodaram e passaram a fazer o aluno/atleta a pular etapas em função do resultado e pararam de ensinar Judô e partiam para ensinar só agarrar as pernas, são os professores que ensinam isso, não é verdade?
Na minha opinião devemos nos ater um pouco mais ao Judô infantil, em estudar regras adaptadas para crianças, assim como praticamente todas as modalidades já fizeram. Penso que, não se pode ter a mesma regra para um campeão olímpico e para uma criança de 9, 10 anos há de ser regulamentado em nível nacional, já que existem estados que tem regras adaptadas mas no campeonato brasileiro a regra não é adaptada.
Equipe: De acordo com a nova regra técnicas perfeitas do judô geralmente confundidas com “catadas” como kata-guruma ou morote-gari estão proibidas. O que você acha disso? Você não acha que a FIJ matou um pouco do judô clássico?
Floriano: Acho que o Judô clássico não dependia dessas técnicas apenas, mas entendo que em um primeiro momento tem que se radicalizar sim para depois se ajustar a bom termo.
Equipe: Como você avalia os recentes resultados do judô brasileiro nos campeonatos internacionais?
Floriano: O Judô brasileiro está consolidado mundialmente, os resultados são frutos de um trabalho de muitos professores que há tempos vem dando a vida pelo judô. A CBJ tem muito mérito em ter desenvolvido um sistema de departamentos que trabalham de maneira interdisciplinar que facilita atingirem resultados. Não se pode esquecer do trabalho de cada técnico, seja de clube grande ou não, que está todos os dias com seus atletas na mão e também dos clubes e que investem mensalmente nos seus atletas, para que possam ter condições de seguirem no caminho certo dentro da carreira, e das federações que fazem a interface clubes, CBJ, além de conduzir o judô nos estados.
Equipe: Temos visto que a CBJ anda investindo pesado no judô nacional com treinamentos de campo, seletivas para diversas categorias, médicos especializados como ortopedistas, fisioterapeutas e até ginecologistas, além de todo o apoio de translado, alimentação, equipamentos e etc para os atletas. Até que ponto você acha que este investimento irá gerar resultados para o judô nacional? Acha que a CBJ poderia investir em mais alguma coisa?
Floriano: O retorno é sempre positivo sim, pois cada bom resultado, repercute na comunidade do judô nacional, positivamente.
A questão de investimento é bem complexa e creio que a CBJ tem planos concretos para esses investimentos.
Floriano de Almeida.
Jigoro Kano e o Judo
Jigoro Kano, um jovem de físico franzino, graduado em filosofia pela Universidade Imperial de Tóquio, tendo conhecimento do Jujitsu, observou que suas técnicas poderiam ter valor educativo na preparação dos jovens, no sentido de oferecer ao indivíduo oportunidade de aprimoramento do seu autodomínio para superar a própria limitação. Assim, passou a ter como meta transformar, aquela tradicional arte marcial num esporte que pudesse trazer benefícios para o homem, ao invés de utilizá-la como arma de defesa pessoal simplesmente.
Aprofundou seus estudos, pesquisando e analisando as técnicas conhecidas; o Professor Kano organizou-as de forma a constituir um sistema adequado aos métodos educacionais, como uma disciplina de educação Física, evitando as ações que pudessem ser lesivas ou prejudiciais à sua prática por qualquer leigo. Com esse intuito, em 1882 fundou sua própria escola e, para distinguir, de maneira evidente, das formas que identificavam o antigo Jujitsu, denominou de JUDÔ KODOKAN, destinada à formação e preparação integral do homem através das atividades físicas de luta corporal e do aperfeiçoamento moral, sustentada pelos princípios filosóficos e exaltação do caráter, que era a essência do espírito marcial dos samurais, o “Budo”.
Jigoro kano transformou a arte marcial do antigo Jujitsu no “caminho da suavidade” em que através do treinamento dos métodos de ataque e defesa pode-se adquirir qualidades mais favoráveis à vida do homem, sob três aspectos: condicionamento físico, espírito de luta e atitude moral autêntica.
A primeira qualidade, condições física, é obtida pela prática do esporte que exige esforço físico extenuante, de forma ordenada e metódica para proporcionar um corpo forte e saudável. Pois todas as funções corporais tornam-se melhor adaptada pela atividade que promove aumento de força muscular geral, da resistência, da coordenação, da agilidade e do equilíbrio. Devido ao treinamento rigoroso, também, o indivíduo tende a tomar mais cuidado com a sua saúde, prevenindo doenças e condicionando a reagir reflexivamente para evitar acidentes.
A segunda qualidade, espírito de luta, significa que pela prática das técnicas do Judô e pela incorporação dos princípios filosóficos durante os treinamentos, o indivíduo se torna mentalmente, condicionado a proteger seu próprio corpo em circunstâncias difíceis, defendendo-se quando ameaçado perigosamente. Com o treinamento, adquire autoconfiança e autocontrole, não para fugir do perigo, mas para adotar medidas e iniciativas em qualquer situação. Em outras palavras, o Judô é uma arte para a autoproteção total.
Por último, a atitude moral autêntica é concebida através do rigor do treinamento, que induz a humildade social, a perseverança, a tolerância, a cooperação, a generosidade, o respeito, a coragem, a compostura e a cortesia. As experiências obtidas durante o treinamento, por tentativa e erro e pela aplicação das regras de luta, impõem mudanças de atitudes, elevando o poder mental da imaginação, redobrando a atenção e a observação e firmando a determinação. Quanto falhas do conhecimento social e de moralidade constituem-se em problemas, um método de ensinar a cortesia entre as pessoas e melhorar a atitude social torna-se importante e, por isso, o Judô, desempenha papel relevante nesse contexto, como instrumento de formar e lapidar os verdadeiros caracteres morais do ser humano.
Fonte: Projeto Budô
Principios Filosoficos
A aquisição daquelas qualidades citadas anteriormente, tem como alicerce os três princípios filosóficos definidos por Jigoro kano que, como ditado por ele mesmo evidenciam a principal diferença entre o JUDÔ KODOKAN e o antigo Jujitsu : ” o Judô pode ser resumido como a elevação de urna simples técnica a um principio de viver” (Jitsu = técnica; Do = princípio). Esses princípios, mesmo não sendo conscientemente esclarecidos e compreendidos, estão presentes em todos os atos e atividades do praticante de judô. Por outro lado, quando o praticante tiver fixado e tomar consciência dos princípios que norteiam o judô, pode-se verificar que não são restritos ao Dojô, mas são igualmente válidos em qualquer atividade da vida diária, quando se pretende atingir um determinado objetivo.
Os três princípios do judô são:
JU = suavidade
SEIRYOKU-ZEN-YO = máxima eficiência com mínimo esforço
JITA-KYOEI = bem estar e benefícios mútuos
O princípio da máxima eficiência é aplicado à elevação ou à perfeição do espírito e do corpo na ciência do ataque e da defesa, exige primeiramente ordem e harmonia de todos os membros de uma coletividade e isto pode ser atingido com o auxílio e as concessões entre si para atingir a prosperidade e os benefícios mútuos.
O espírito final do judô, por conseguinte, é de incutir no íntimo do homem o respeito pelos princípios da máxima eficiência, da prosperidade e benefícios mútuos e da suavidade, para poder atingir, individualmente e coletivamente seus estados mais elevados e ao mesmo tempo mais desenvolvidos na arte de ataque e defesa.
O professor Kano afirma o seguinte: “Ainda que eu considere o Judô dualisticamente, a prosperidade e benefícios mútuos pode ser vista como sua finalidade última e a máxima eficiência como meio para atingir esse fim. Essas doutrinas são aplicáveis a todas as condutas do ser humano”.
Fonte: Projeto Budô
Dados biograficos do Prof. Jigoro Kano
18/10/1860 – Data de nascimento
1877 – Ingressa na Universidade Imperial de Tóquio Torna-se aluno do Mestre Fukuda (Jujitsu)
1878 – Funda o primeiro clube de basebol do Japão
1881 – Licenciado em letras Torna-se aluno da escola de Kito (Jujitsu),
1882 – Forma-se em Ciências Estéticas e Morais Em fevereiro, funda a sua Escola da qual deu o nome Judô Kodokan
- Em agosto é nomeado professor no Colégio dos Nobres
1884 – Nomeado adido do Palácio Imperial
1886 – Nomeado vice-presidente do Colégio dos Nobres
1889 – Viaja à Europa como Adido da Casa Imperial
1899 – Torna-se Presidente do Butokukai (Centro de estudo de artes militares)
1907 – Elabora os três primeiros Katas de Judô
1909 – Torna-se membro do Comitê Olímpico Internacional, como primeiro representante do Japão
1911 – Eleito presidente da Federação Desportiva do Japão
1922 – Passa a Ter assento na Câmara Alta do Parlamento Japonês
1924 – Nomeado Professor Honorário da Escola Normal Superior de Tóquio
1928 – Participa da Assembléia Geral dos Jogos Olímpicos de Amsterdã
04/05/1938 – Morre a bordo do navio que transportava ao Cairo onde se realizava a Assembléia geral do Comitê Internacional dos Jogos Olímpicos.
Evolução Cronológica do Judô:
1882 – Fundação do Judô Kodokan
1886 – Histórica competição entre artes marciais, inclusive o Judô da qual vence o Judô Kodokan, passando assim, a ser praticado pela polícia Japonesa.
1902 – O Judô chega aos Estados Unidos
1905 – O Judô chega à França.
1909 – Jigoro Kano torna-se colaborador do Barão Pierre de Coubertin no movimento Olímpico, permanecendo até a sua morte.
1947 – Primeira competição entre França e Inglaterra.
1948 – Fundação da União Européia de Judô.
1949 – Fundação da União Asiática de Judô.
1951 – Primeira Competição na Inglaterra com a participação da Argentina.
1952 – Fundação da União Panamericana de Judô
1954 – Primeiro Campeonato Brasileiro de Judô.
1956 – Primeiro Campeonato Mundial de Judô em Tóquio. Primeira participação do Brasil em um campeonato Internacional; o segundo Campeonato Panamericano.
1957 – Fundação da União Oceânica de Judô.
1958 – Fundação da Federação Paulista de Judô.
1963 – Fundação da União Africana de Judô.
1964 – O judô é aceito nos jogos Olímpicos de Tóquio, com apenas três categorias.
1969 – Fundação de Confederação Brasileira de Judô. Até então, o judô era regido pela Confederação Brasileira Pugilismo.
1972 – O judô passa a ser definitivamente esporte olímpico.
Fonte: Projeto Budô
O Apagar das Luzes
Corria o final do século XIX no Japão. Em 1868 houve a Restauração Meiji, com o retorno do poder ao imperador. Com o fim da classe feudal dos senhores da guerra, a utilização de guerreiros particulares caiu em declínio em prol de um exército unificado, com influência militar do Ocidente. Em 1871 um decreto imperial abolia o uso das duas espadas, símbolo máximo dos Samurais. Isso causou uma comoção nacional. Muitos Samurais praticaram o seppuku, a morte ritual (incorretamente chamada de hara-kiri no Ocidente), enquanto outros se tornaram artesãos, pescadores ou comerciantes. Mas uns poucos não conseguiram abandonar as artes marciais.
Na época do decreto que aboliu as espadas, muitas escolas de artes marciais não agüentaram a falta de alunos e fecharam. Incontáveis estilos que existiam naquela época (alguns autores mencionam cerca de 400 estilos, embora vários sejam similares, mudando apenas o nome) desapareceram, levando consigo preciosos segredos das artes marciais. Mas o antigo estava definitivamente fora de moda, pois a população buscava freneticamente os costumes e tecnologias do Ocidente, particularmente a Europa.
Em meio à essa onda avassaladora, sem trabalho e com sua arte desacreditada, muitos experts em Jujutsu se meteram em brigas de rua e arruaças, denegrindo o bom nome da arte. Logo o têrmo “jujutsu” era sinônimo de baderneiro e encrenqueiro. Muitos mestres juntavam seus adeptos em turmas e lançavam desafios abertos, organizando lutas remuneradas, que geravam combates encarniçados pela “supremacia” técnica. Nesse quadro caótico, onde as raízes estruturais das artes marciais japonesas estavam abaladas e ameaçavam ruir, surge um homem com uma visão diferente, moderna, embora dotado do saber ancestral: Jigoro Kano.
Fonte: Projeto Budô
Comeca o Judo
Jigoro Kano nasceu em Kikage, próximo de Kobe, em 28 de outubro de 1860, de família abastada. Em 1871, ano da proibição das armas, Kano e sua família se mudaram para Tóquio. Aos 18 anos, aluno da Universidade Imperial de Tóquio, Jigoro Kano começou a treinar o Jujutsu, atraído pela perspectiva de que um homem frágil pudesse derrubar um gigante (ele media 1,54m).
Pelo declínio da arte, foi muito difícil encontrar um Mestre de Jujutsu com conhecimentos que satisfizessem o inteligente jovem. Começou a treinar com Teinosuke Yagi, cujo estilo nos é desconhecido. Depois estudou com Hachinosuke Fukuda e Masatomo Iso, da escola Tenshin Shinyo Ryu. Aprendeu também o Kito Ryu com o Mestre Tsunetoshi Iikubo, tendo atingido os maiores segredos desses dois estilos.
Em 1882 Kano abriu seu próprio Dojô, chamado Kodokan, onde ensinava uma variação moderna do Jujutsu que ele chamava Judô. A mudança do nome se devia ao fato de que Mestre Kano não queria que sua arte tivesse a conotação negativa conferida aos praticantes de Jujutsu, pois considerava repugnante a prostituição das artes marciais através de combates remunerados e desafios. Além disso a palavra “Do”, caminho, era mais adequada aos seus objetivos: fazer do Judô um caminho, uma prática saudável para o corpo e para a mente e possível de ser praticado por homens e mulheres de qualquer idade. Em sua época era freqüente o número de acidentes sérios durante os treinos de Jujutsu. Jigoro Kano afirmou ainda que o termo escolhido, “judô”, não havia sido criado por ele, mas era muito antigo, sendo utilizado pela escola Jikishin Ryu. Para diferenciar a sua arte ele a denominava “Kodokan Judô”, nome pela qual ainda é conhecida.
Mestre Kano era um gênio das artes marciais. Seu desempenho foi tão extraordinário que Mestre Iikubo deu-lhe todos os livros e manuscritos ancestrais contendo os segredos do Kito Ryu. Embora dominasse pelo menos dois estilos, Mestre Kano nunca parou de aprender. Mantinha no conselho do Kodokan alguns dos melhores Mestres de Jujutsu de seu tempo, os quais forneciam a ele manuscritos e pergaminhos sobre suas técnicas mais ocultas. Como um inovador, Mestre Kano estava sempre procurando conhecimentos novos. Ao assistir uma demonstração de Karatê de Mestre Funakoshi, convidou-o a dar algumas aulas no Kodokan. Acabaram por se tornar grandes amigos e Kano convenceu Funakoshi a permanecer ensinando no Japão. Por causa disso o Karatê se difundiu e cresceu muito nesse país, passando daí para o resto do mundo. Ao saber da existência do Aikidô, assistiu uma aula do Mestre Ueshiba e ficou fascinado. “Esse é o Budô que eu gostaria que o Judô se tornasse”, mencionou mais tarde a um aluno. Pouco tempo depois enviou alguns de seus alunos, entre eles Kenji Tomiki, para aprender Aikidô. Este acabou por criar uma variante, chamada “Tomiki Aikidô”, que possui competições a exemplo do Judô.
As técnicas mortais do Jujutsu foram transformadas em técnicas mais leves, suaves e divertidas de aprender. A obtenção de uma boa forma física foi enfatizada e a parte esportiva foi criada. Mestre Kano também desenvolveu o primeiro sistema de faixas de graduação, chamando de Kyu aos graus dos aprendizes e de Dan aos graduados. Esse sistema não existia no Japão anteriormente ao Judô. Baseado nas roupas marciais tradicionais ele desenhou um blusão forte e resistente e calças largas, para facilitar a “pegada” e os movimentos corporais. Nascia o que hoje se conhece popularmente como “kimono”.
Fonte: Projeto Budô
Por que Judo?
Segundo o próprio Mestre Kano, enquanto ele estudava Jujutsu percebeu que essa arte seria um treinamento excepcional para a mente e para o corpo, devendo ser disseminada por todo o mundo. Mas o antigo Jujutsu não havia sido desenvolvido para a educação física e mental, para o desenvolvimento intelectual e moral, muito menos ao nível pretendido por Mestre Kano. Para essa missão era necessária uma arte mais refinada, com conceitos mais modernos. Ao mesmo tempo ele não queria inventar um nome totalmente novo, pois a sua arte era baseada em conhecimentos ancestrais, os quais ele procurava conservar da deterioração geral. Além de ser formado por técnicas de Jujutsu especialmente selecionadas, o Judô incluía técnicas de luta Greco-Romana ocidental e metodologias de treinamento científicas, baseadas numa nova disciplina que crescia muito na Europa naquela época: a Educação Física.
Quando o Kodokan foi aberto, possuía nove alunos e sua área media 12 tatames, medida japonesa que usa o tamanho dos tatamis. Cada tatami media aproximadamente 1,98 m2. No 70º aniversário do Kodokan, este possuía 500 tatamis e seus adeptos somavam milhões por todo o mundo. Mas nem tudo foram flores no caminho ascendente do Judô.
Fonte: Projeto Budô
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